Nilton Travesso: um mestre que ensinava a olhar além das câmeras
- 06/11/2026
Artigo de Cesar Miranda Ribeiro ¦ Presidente da Fundação MIS
Nilton Travesso, um dos grandes nomes da história da televisão brasileira, nos deixa, mas seu legado permanecerá vivo na memória de todos que acompanharam sua trajetória e tiveram o privilégio de trabalhar ao seu lado. Sua contribuição está registrada em programas, produções e momentos que ajudaram a construir a identidade da televisão brasileira.
Muito já será contado sobre sua história, amplamente documentada em livros, jornais e revistas. Mas gostaria de ir além dos registros históricos e transformar este artigo em um agradecimento pessoal a um profissional que teve papel fundamental no início da minha jornada no audiovisual.
Tive a honra de iniciar minha trajetória na Rede Globo de Televisão, mais precisamente no programa TV Mulher, na década de 1980. Trabalhava no núcleo do Rio de Janeiro, dando suporte às produções realizadas em São Paulo, e foi nesse ambiente que conheci de perto o diretor Nilton Travesso.
O mestre Travesso era uma pessoa ímpar pela simplicidade, pela atenção e pela maneira como conduzia suas equipes. Até mesmo na hora de chamar a atenção por um erro ou descuido, sabia transformar a situação em aprendizado. Apesar da minha pouca experiência naquele momento, ele nos ouvia, pois entendia que, mesmo na ingenuidade de quem estava começando na televisão, poderiam surgir ideias e contribuições capazes de melhorar o programa.
Guardo uma lembrança muito especial. Eu tinha apenas 25 anos quando recebi a importante missão de acompanhar e dirigir uma série de programas do quadro Comportamento, apresentado pelo psicanalista Eduardo Mascarenhas, em uma plataforma marítima da Petrobras, onde cinco mulheres embarcariam pela primeira vez. Para essa experiência, também levamos Cristiane Torloni, então esposa de Eduardo.
Realizamos uma série de entrevistas e, ao retornar ao Rio de Janeiro, mergulhei na edição dos cinco programas, que seriam exibidos dentro do espaço dedicado ao quadro de Eduardo no TV Mulher.
Quando terminei o trabalho, peguei um avião e fui a São Paulo apresentar o material a Nilton Travesso. Ele assistiu, ao meu lado, aos cinco programas, cada um com 15 minutos de duração. Ao terminar, levantou-se, apertou o botão de eject do equipamento U-Matic, virou-se para mim e, em tom fraternal, fez uma pergunta que jamais esqueci:
"Cesar, de quem é o show? Das mulheres que lá estão ou do editor?"
Apenas me levantei e respondi:
"Vou refazer."
Entendi imediatamente a mensagem. Naquele instante nasceu uma consciência profissional que me acompanha até hoje: o conteúdo é sempre mais importante do que os efeitos, recursos e artifícios que utilizamos para apresentá-lo. A técnica deve estar a serviço da história, nunca acima dela.
Essa lição permanece presente na maneira como conduzo minhas atividades culturais e de gestão. Foi uma das grandes heranças que recebi daquele mestre.
Nilton Travesso também tinha uma característica que considero fundamental na formação de novos profissionais: oferecia oportunidades. Não olhava apenas para aqueles que estavam diante das câmeras, mas também reconhecia o talento e o potencial de quem contribuía nos bastidores, na produção, na edição e na direção.
Lembro-me de quando me ofereceu a oportunidade de dirigir o quadro Claquete, com Hildegard Angel. Aquela experiência acabou me fazendo um grande favor, pois me ajudou a compreender que meu caminho também passava pelo jornalismo. Decidi abandonar a Faculdade de Química Industrial e ingressar em Comunicação Social. Foi uma escolha determinante para minha formação como jornalista, somada às atribuições que já exercia como radialista. A visão e a confiança de Nilton ajudaram a despertar em mim o interesse pela arte de escrever e pela comunicação em suas diferentes possibilidades.
Também guardo lembranças das ocasiões em que passei pela equipe do Balão Mágico. Foi naquele período que acompanhei o início da trajetória artística de Simony, ainda menina, demonstrando uma desenvoltura que não passava despercebida. Nilton tinha essa capacidade de observar, identificar talentos e perceber possibilidades onde muitos ainda não enxergavam.
Havia também o Som Brasil, com Lima Duarte, outro programa que demonstrava sua versatilidade e sua capacidade de compreender a riqueza da cultura brasileira e transformá-la em televisão.
É importante lembrar que a trajetória de Nilton Travesso ultrapassou as fronteiras de um único programa ou emissora. Sua carreira começou na década de 50, na TV Record, onde participou da construção de uma das primeiras grandes fases da televisão brasileira. Passou por produções históricas, festivais de música, programas de entretenimento e dramaturgia. Na Rede Globo, participou da criação do Fantástico e esteve ligado a projetos que marcaram gerações. Mais tarde, também deixou sua marca na TV Manchete e no SBT, contribuindo para a consolidação de importantes núcleos de teledramaturgia.
Poderia enumerar inúmeras outras realizações desse grande profissional. Essa tarefa deixo para os veículos de comunicação e para os pesquisadores que certamente continuarão registrando sua contribuição à história da televisão brasileira.
Meu propósito aqui é outro: oferecer mais um testemunho sobre o homem que existia por trás do grande diretor. Alguém que nos fez sonhar, nos divertiu e ajudou a despertar o orgulho pela nossa brasilidade. Alguém que compreendia que fazer televisão era, acima de tudo, trabalhar com pessoas, histórias, talentos e oportunidades.
Gostaria de finalizar esta homenagem lembrando uma cantora que Nilton admirava profundamente e que se tornou a madrinha do TV Mulher: Elis Regina. Foi ele quem a dirigiu em um dos videoclipes mais marcantes da história da música brasileira, Como Nossos Pais. A escolha não poderia ser mais simbólica. A música fala de gerações, de experiências e de caminhos que se cruzam, temas que também fazem parte da relação entre um mestre e aqueles que aprendem com ele.
Hoje, ao olhar para minha própria trajetória, tenho consciência da importância daquele período e de tudo o que vivi ao lado de profissionais que ajudaram a construir a televisão brasileira.
Foram 36 anos de Rede Globo de Televisão, uma jornada que começou com oportunidades, desafios e aprendizados. E, entre tantas pessoas que fizeram parte dessa história, Nilton Travesso ocupa um lugar muito especial
Deixo aqui meu respeito, minha admiração e, sobretudo, minha gratidão por todas as oportunidades que me foram oferecidas. Algumas pessoas passam pela nossa vida profissional e deixam ensinamentos que levamos para sempre. Nilton foi uma delas.
Tive um grande professor. E essa é uma história que faço questão de contar.
Publicado em 06/11/2026
Cesar Miranda Ribeiro



