CARTA DO MIS PARA ANGENOR DE OLIVEIRA, QUE NASCEU HÁ 114 ANOS!
- 11/10/2022
Queixo-me às rosas
Mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai
Cartola, sabemos que as rosas não falam, mas, se falassem, agradeceriam tão linda homenagem poética, feita quando você tinha quase 70 anos. Louvariam a canção de amor que virou trilha de novelas, sendo interpretada por talentos da MPB, como Beth Carvalho, Emílio Santiago, Fagner, e também executada por Léo Gandelman. Muita gente boa regravou suas canções. A lista é grande.
A cidade do Rio de Janeiro de 1908, ano em que você veio ao mundo, não imaginava o gigante que você se tornaria. Sabemos que você, pequeno, pegava escondido o cavaquinho de seu pai. E ainda aprendeu a tocar violão sozinho. A música já estava no sangue, não é? Menino nascido no Catete, que passou por Laranjeiras e foi morar no Morro da Mangueira, vida difícil, como a de tantos brasileiros. Aos 11 anos, foi trabalhar, primeiro em uma tipografia e, depois, como servente de obra. Para se livrar do pó de cimento, seu chapéu-coco virou marca registrada. E, como apelido pega rápido, foi batizado, ou melhor, eternizado: Cartola.
Com 15 anos você perdeu sua mãe, e a dureza das ruas virou realidade. Essa vida boêmia tão precoce foi a culpada da sua expulsão de casa por seu pai, que juntou suas irmãs e abandonou o Morro da Mangueira. Como escapar da sina? Como você disse em uma canção, “Deus, grande Deus, meu destino, bem sei, foi traçado pelos dedos teus”. Você ficou por ali, no morro, sem família, nas rodas de samba e na malandragem.
É, o mundo é mesmo um moinho. Jovem, fraco, doente, sem futuro. Mas sempre surge um anjo para estender a mão, e, no seu caso, aos 18 anos, foi Deolinda, vizinha que virou esposa. Amor, um lar, o samba, que estava na alma, e as parcerias, como a de Carlos Cachaça, grande amigo, padrinho de crisma. Se o morro da Mangueira pudesse falar, quanta coisa contaria, das suas brigas e seus camaradas sambistas com outros grupos. Foram brigas “férteis”: seu “Bloco dos Arengueiros” foi a semente da verde e rosa Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira. Você foi um dos fundadores. Escolheu o nome, as cores e ainda compôs o 1º samba da Escola. O Rio de Janeiro e o Brasil agradecem!
Tu és gênio da nossa música, reconhecido por Heitor Villa Lobos. Cartola, a sua trajetória é grande, tem muitos personagens importantes. Não podemos esquecer da simpática dona Zica, que também fez história e te ajudou a se reerguer, de Stanislaw Ponte Preta, Elton Medeiros, Hermínio Bello de Carvalho e ainda de Francisco Alves, Silvio Caldas, Aracy de Almeida e da musa Carmem Miranda. Tanta gente famosa gravou suas composições. Obrigada, Angenor de Oliveira!
Vamos comemorar a data com uma playlist muito especial, que entra no ar hoje, às 11h, é só sucesso e uma raridade: provavelmente um dos primeiros registros de Cartola como intérprete, a música “Tristezas”, de um disco em acetato com a inscrição “Escola de Samba do Portela”, da coleção Discoteca Pública do Distrito Federal, do MIS.
A memória do cantor, compositor e violonista Cartola está salvaguardada no MIS: seu Depoimento para a Posteridade, concedido em 3 março de 1967, tendo como entrevistadores Jocob do Bandolim e Ricardo Cravo Albin; a entrevista de Luiz Carlos Saroldi, de 18 de novembro de 1975, no Especial Rádio Jornal do Brasil; e ainda centenas de itens: partituras, fotos, textos, os famosos discos “Fala Mangueira”, de 1968 e “Cartola 70”, de 1979, e muito mais!
Para pesquisar, basta enviar e-mail para saladepesquisa@mis.rj.gov.br e agendar uma visita ao Centro de Pesquisa e Documentação Ricardo Cravo Albin.
Publicado em 11/10/22 por Tetê Nóbrega



