MIS RJ recebe baluartes e integrante do Renascença Clube na roda de conversa "Mulheres no Samba"
- 08/12/2023
Descontração e muitas histórias foram apenas alguns dos ingredientes usados na receita que garantiu o sucesso da roda de conversa "Mulheres no Samba", realizada nesta sexta-feira (08/12), no Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, na sede da Lapa. As convidadas especiais Maria Caboquinha, Euza Borges e Maria Helena da Silva falaram sobre o protagonismo das mulheres no samba e a cultura afro-brasileira.
A mediação da conversa foi feita pela jornalista e assessora de imprensa do MIS RJ, Fernanda Soares. A profissional abriu o encontro destacando as riquezas salvaguardadas pelo museu, como os arquivos sonoros e discos que trazem como faixa o primeiro samba registrado oficialmente no Brasil, mais especificamente, no Rio de Janeiro, em 1917. A canção "Pelo Telefone", de Donga e Mauro de Almeida, nasceu na casa da Tia Ciata, uma dirigente do Cambomblé que recebia cantores e compositores numa época em que o gênero musical era criminalizado.
O papel fundamental das mulheres, assim como a cultura afro-brasileira e as experiências envolvendo o samba, estiveram presentes durante todo o evento, que reuniu cerca de dezenas de pessoas no mezanino da sede na Lapa e teve transmissão ao vivo pelo YouTube (confira aqui).
Maria Aliano, a Caboquinha do Salgueiro, falou sobre como, mesmo diante da personalidade tímida, conseguiu ganhar espaço e respeito no mundo do samba. Ela ajudou a fundar e atualmente é presidente da Velha Guarda do Salgueiro, mas já passou por diversos segmentos: foi diretora de Harmonia, passou pela Ala das Baianas, pela Ala dos Compositores e chegou a ser Rainha do Salgueiro, a escola de samba cuja bateria recebe o apelido de "Furiosa".
“Eu não percebi, apenas fui ficando. As coisas foram acontecendo e quando vi estava na Velha Guarda. Não percebi esses detalhes e também nunca liguei para isso [referindo-se a status]. Eu quero é viver a minha vida, viver com o samba”, afirmou Caboquinha.
A integrante do Departamento de Harmonia da Unidos de Vila Isabel, Euza Borges, falou sobre a importância do setor para a escola de samba e também fez reflexões sobre a evolução e a trajetória do gênero musical registrado pelo Instituto Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Cultural e Imaterial da Humanidade, e reconhecido pela Unesco como Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade.
"Quando se fala que a bateria é o coração de uma escola de samba, não é. É o Departamento de Harmonia, porque sem ele a escola não anda, a bateria não consegue desenvolver", pontuou Euza, acrescentando: "É legal ver que o samba chegou no lugar onde nossos antepassados sonhavam. Mas sonhavam que a gente estaria à frente dessa história. Hoje o samba rende muito dinheiro, o Carnaval rende muito dinheiro, mas não é para a gente. O dinheiro não volta pra comunidade, para aquele cara que toca o ano inteiro", criticou a sambista, que atua como agente comunitária de saúde e é uma das fundadoras da Kizomba Empreendedora Mulheres do Morro dos Macacos, um coletivo feminino que recebeu o Prêmio Ubuntu de Cultura Negra este ano.
Maria Helena da Silva, que é membro do Conselho Deliberativo Benemérita e participante do Departamento Feminino do Renascença Clube, com o qual o MIS RJ tem uma enriquecedora parceria, destacou a importância do trabalho desenvolvido no primeiro clube social negro da capital fluminense, que oferece atividades de cunho social, recreativo, cultural, artístico e esportivo.
“O Renascença fundado em 1951. Eu era criança. Hoje estou com 83 anos e desde sempre acompanhei. Meu pai foi diretor. Eu vejo como um local de resistência da cultura negra. Era a oportunidade que as pessoas tinham, naquela época, de um espaço para entrar e sair à vontade sem sofrer preconceito, sem ser discriminado”, disse Maria Helena, que é professora aposentada e usa a didática das salas de aulas nas atividades que desenvolve no "Rena", como a instituição é carinhosamente chamada. Inclusive, ela deu uma breve aula sobre a origem do nome "Samba do Trabalhador", o tradicional evento que reúne centenas de pessoas na sede do clube todas as segundas-feiras.
"O Renascença abraçou o samba desde sempre, mas essa ligação se acentuou ainda mais no ano de 2005, quando se agrupou o compositor Moacyr Luz e nasceu o que chamamos de 'Samba do Trabalhador'. Só que ninguém entendia porque 'Samba do Trabalhador' às segundas-feiras, já que é um dia que geralmente o trabalhador trabalha. O nome veio porque era [o evento] para os trabalhadores da música, os artistas que trabalhavam a semana toda e folgavam às segundas-feiras", esclareceu Maria Helena.
O presidente do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, Cesar Miranda, agradeceu a presença das convidadas e do público, e o encontro foi encerrado com a exibição de vídeos que fazem parte do acervo da instituição. As imagens mostraram um pouco da trajetória das escolas de samba Acadêmicos do Salgueiro e Unidos de Vila Isabel. O conteúdo estará disponível para consultas e pesquisas em breve no banco de dados do MIS RJ.
Publicado em 8/12/2023 por Fernanda Soares




https://www.youtube.com/watch?v=WodIhFH-VSQ



