Coleções Históricas e recentes compõem acervo e enriquecem homenagem do MIS RJ ao Dia do Fotógrafo
- 08/01/2024
A fotografia faz parte da história do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro desde a sua concepção. Em 1964, antes mesmo do museu ser inaugurado, as coleções dos fotógrafos Augusto Malta e Guilherme Santos foram adquiridas. Na inauguração do MIS RJ, em 1965, elas já estavam lá, enriquecendo o acervo. Neste 8 de janeiro, Dia do Fotógrafo, o Museu da Imagem e do Som reverencia estes profissionais, e revela um pouco de como é feito o trabalho de guarda e preservação dos mais de 100 mil itens do setor iconográfico.
São 58 anos de uma responsabilidade que só cresce. Começou com as Coleções Históricas e ganhou reforços nos últimos anos. Em 2022, veio a Coleção Ortiz Rubio Alexim, enquanto em 2023 foi a vez da Coleção Ronaldo Câmara. Fotógrafos renomados, cujo trabalho é salvaguardado pelo MIS RJ. Para o presidente do museu, Cesar Miranda Ribeiro, as recentes doações são uma forma de reconhecimento da importância do Museu da Imagem e do Som como guardião e difusor da história do Rio de Janeiro e do Brasil.
“São gestos que nos emocionam e deixam claro que as pessoas envolvidas entendem a doação como uma forma de expandir o alcance de um material tão rico. São milhares de fotos, equipamentos e até um livro que agora podem ser consultados e admirados pelo público em geral”, pontua Cesar Miranda, acrescentando que, no caso de Ortiz Alexim, que morreu com 28 anos de idade, a doação foi feita pela família. Já a de Ronaldo Câmara foi feita pelo próprio profissional.
Aproximadamente 70 mil itens da Coleção Ronaldo Câmara estão salvaguardados no setor iconográfico, que é responsável por preservar, por exemplo, as fotografias em papel, os negativos de vidro e as estereoscopias (fotos que dão a sensação de imagem em 3D, em vidro, método que foi muito usado no início do século 20). Já as Coleções Históricas de Augusto Malta e Guilherme Santos somam cerca de 60 mil itens no mesmo setor.
As etapas pelas quais passam a preservação destes materiais incluem o diagnóstico, a higienização, a organização, o arrolamento (descrição detalhada), o uso de materiais próprios para a guarda de acervos, a catalogação, a digitalização, e a disponibilização para pesquisa e consulta. Cada tipo de material, ou seja, papel fotográfico, vidro e plástico, por exemplo, demanda um cuidado específico.
Todo o conhecimento aplicado aos materiais salvaguardados pelo MIS será expandido para atender a criação da Fototeca Estadual do Rio de Janeiro. De acordo com a Lei 10.063, sancionada em julho de 2023 pelo governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, a primeira fototeca do estado poderá integrar a estrutura da Fundação Museu da Imagem e do Som do Estado do Rio de Janeiro (FMIS). A autora do texto é a deputada estadual Dani Balbi (PCdoB).
A Coleção Augusto Malta tem, em sua maioria, itens em papel fotográfico, embora também haja negativos de diferentes suportes. Na Coleção Guilherme Santos, a maior parte dos itens é em suporte de vidro, já que a técnica estereoscópica era muito utilizada pelo profissional. A Coleção Ronaldo Câmara é composta por mais itens analógicos, como fotos em papel e negativos, mas também inclui arquivos digitais. Já o acervo da Coleção Ortiz Rubio Alexim é salvaguardado pelo setor tridimensional, pois a doação foi de equipamentos que eram usados pelo fotógrafo na captação das imagens.
Os registros revelam muito do olhar de cada um deles sobre a vida. Em comum, Augusto Malta, Guilherme Santos, Ortiz Rubio Alexim e Ronaldo Câmara têm o olhar apurado e o gosto por eternizar pequenas frações de segundo.
Ronaldo Câmara
Dentre os cerca de 70 mil itens doados por Ronaldo Câmara, estão registros de grandes artistas e personalidades da cultura brasileira. A lista dos que já passaram pelas lentes do fotógrafo, com carreira iniciada em 1965, é grande: Nara Leão, Gal Costa, Elis Regina, Pelé, Luís Carlos Miele, Chico Buarque, Ziraldo, Glauber Rocha, Paulinho da Viola, Zé Keti, Tony Tornado, Vera Fischer, Jardel Filho, Tom Jobim e Vinicius de Moraes, entre muitos outros. O retrato é como uma marca registrada do profissional, que chegou a publicar o livro com o título "O retratista – uma fotobiografia".
As paisagens do Rio também brilharam e continuam brilhando pelas lentes de Ronaldo Câmara. Outro trabalho marcante é o registro do cotidiano dos indígenas das etnias Beiços de Pau e Araras, nativos da Amazônia. O material é tão rico que inspirou a criação da Exposição Retratos Povos da Floresta, que ficou em cartaz na sede da Lapa de julho a dezembro de 2023.
Ortiz Rubio Alexim
O fotógrafo e cinegrafista Ortiz Rubio Alexim, um capixaba de São José do Calçado, no Espírito Santo, se mudou para o Rio de Janeiro na infância. Ainda jovem, aos 28 anos, morreu filmando a Esquadrilha da Fumaça, no Campo dos Afonsos. Ortiz Alexim fotografou momentos marcantes do Rio de Janeiro, como a construção do Estádio do Maracanã, Juscelino Kubitscheck e Getúlio Vargas, além do carnaval carioca e do cotidiano da emissora em que trabalhava no início dos anos 50, a TV Tupi.
A doação dos equipamentos do profissional foi feita pelo filho Marcelo Piovesan Alexim e pela neta Flávia Alexim. A família conta que o pai de Ortiz era dono de um cinema, o que pode ter despertado a paixão por imagens.
Augusto Malta e Guilherme Santos
Augusto César Malta de Campos era um grande expoente da classe dos fotógrafos profissionais quando o Rio de Janeiro ainda era o Estado da Guanabara, e considerado um pioneiro. Nasceu em Alagoas e se mudou para o Rio de Janeiro com 24 anos. Como funcionário da Prefeitura do Distrito Federal na época de Pereira Passos, suas fotografias retratavam as grandes transformações urbanísticas do Rio pelas obras do então prefeito, entre 1903 e 1936. Augusto Malta foi, inclusive, o responsável por fotografar a construção do prédio da primeira sede do MIS RJ, na Praça XV, que na época era o Pavilhão do Distrito Federal.
O fotógrafo também registrava a visita de personalidades ilustres ao Brasil e de eventos que buscavam inserir o país no mundo moderno, como a Feira de 1908 e a Exposição Internacional de 1922. Malta ainda trouxe para o MIS o registro de pessoas anônimas em cenas cotidianas do início do século XX, como vendedores ambulantes, operários, imigrantes, foliões de carnaval e outras festas populares. A Coleção Augusto Malta está entre as mais ricas do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, com aproximadamente 32 mil itens.
A mesma linha da modernidade, e de registrar o cosmopolitismo e o Rio como centro político do país seguia o fotógrafo, pesquisador e comerciante Guilherme Antônio dos Santos. Em comum, ele e Malta possuem registros fascinantes do Cristo Redentor e têm os esportes como um dos seus temas prediletos, sendo Guilherme Santos um precursor dos registros fotográficos dos jogos de futebol.
Guilherme Santos utilizava a estereoscopia, uma modalidade muito popular da fotografia nas primeiras décadas do século XX, na qual uma câmera de lentes paralelas fixa as imagens lado a lado, que recompostas num aparelho apropriado reproduzem a sensação de profundidade.
O arquivo estereoscópico em 3ª dimensão do fotógrafo tem registros do Rio de Janeiro no período da 1ª Guerra Mundial, o Rio de Antônio Prado Júnior e Pedro Ernesto, e o Rio Metrópole Moderna, a partir da grande Exposição do 1º Centenário da Independência do Brasil de 1922. Guilherme Santos fixou as paisagens e belezas naturais como um dos elementos constitutivos mais importantes da "Cidade Maravilhosa", documentando vários bairros do Rio, eventos, festas públicas e populares.
Publicado em 8/1/2024 por Fernanda Soares











