MIS RJ salvaguarda testemunho oral e autobiografia de Jacob do Bandolim, que faria 106 anos nesta quarta-feira de cinzas

  • 14/02/2024

MIS RJ salvaguarda testemunho oral e autobiografia de Jacob do Bandolim, que faria 106 anos nesta quarta-feira de cinzas

Aos 15 anos, ele tirou os primeiros sons de um violino trocando o arco por um grampo de cabelo para "pinicar" as cordas. Sem gostar da profissão de perito-contador, prestava mais atenção na melodia do choro que vinha do andar de baixo do que nas aulas de contabilidade. Um fã "doente" de Pixinguinha e Radamés Gnattali. Também tinha muito apreço por doces e fumava três maços de cigarros por dia. Curiosidades que, anos atrás, foram reveladas pelo próprio homenageado do dia: Jacob do Bandolim. O Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, que integra a rede de equipamentos culturais do Governo do Estado, salvaguarda um material rico e exclusivo do mestre, que faria 106 anos nesta quarta-feira de cinzas (14/02).

No setor sonoro da Coleção Jacob do Bandolim, que faz parte do acervo do MIS RJ desde 1974, estão preservados 1.046 discos e 121 fitas de áudio. Parte desse material poderá ser apreciada na Play List especial pelo aniversário do compositor e intérprete, que vai ao ar nesta quinta-feira (15/02) na página da Web Rádio MIS RJ. A coletânea, com 23 músicas, e uma hora e quinze minutos de duração, inclui "Um bandolim na escola", "Falta-me você" e "Simplicidade", na voz do próprio Jacob, além de outras canções que marcaram época.

O MIS RJ salvaguarda preciosidades, como o testemunho oral dado para a série Depoimentos para a Posteridade. A gravação, que consiste numa espécie de entrevista com ampla abordagem sobre a vida e obra do entrevistado, foi feita em fevereiro de 1967, quando o músico, arranjador e compositor tinha 49 anos. Ele morreu dois anos depois, aos 51 anos, em decorrência de um enfarto. A conversa, que durou cerca de duas horas, contou com a participação de Ricardo Cravo Albin (diretor do MIS à época) e do musicólogo filho de Jacob, Sérgio Bittencourt.

Mas o depoimento de Jacob do Bandolim não é o único registro exclusivo do museu em que o músico fala sobre si mesmo. Na Coleção Almirante, que está entre as coleções históricas, as primeiras obtidas pelo Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, uma relíquia permanece preservada no setor textual: uma autobiografia, de 1953, escrita em máquina de escrever. No texto, o músico faz revelações, como seu gosto por ferramentas (serras elétricas e máquinas de furar), por doces e pelo cigarro. Ele ainda afirmou que não bebia e não gostava de estudar bandolim, gostava apenas de tocá-lo.

O relato (que segue na íntegra ao final do texto) é uma rara oportunidade de entender quem era Jacob do Bandolim, segundo ele mesmo. O documento foi encontrado depois que o presidente do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, Cesar Miranda Ribeiro, solicitou uma pesquisa para o setor textual por conta de um projeto, em 2021.

"Esse tipo de 'descoberta' é uma fonte de energia para nós, nos faz querer mergulhar ainda mais neste universo único que é o MIS. É como encontrar um tesouro, uma joia rara. São relíquias salvaguardadas pelo museu, com um enorme valor histórico, e que temos o prazer de mostrar para a sociedade. Acreditamos que, desta forma, estamos apenas preservando o passado, mas também levando inspiração para um futuro melhor", pontuou Cesar Miranda.

Depoimento para a Posteridade e acervo MIS

Jacob Pick Bittencourt nasceu no dia 14 de fevereiro de 1918 no bairro Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Seu jeito metódico e sua firmeza nas opiniões ficam evidentes ao longo da entrevista. Munido de anotações e recortes de jornais, entre outros documentos, acionava o fotógrafo a cada vez que queria mostrar algo para comprovar suas palavras: "Câmera, por gentileza", dizia ele com o papel nas mãos. Jacob rejeita ser chamado de "menino prodígio" e conta que, no início da carreira (a qual ele se refere como amadora), não compunha, apenas reproduzia o que ouvia. Segundo o músico, foi em 1933, quando tinha 15 anos, que bateu à porta de uma rádio (Rádio Philips) pela primeira vez.

“Começa minha carreira radiofônica, embora amadoristicamente. Não sou profissional, nunca vivi à custa de música. Não tenho confiança”, disse Jacob em seu testemunho ao MIS. Ainda jovem, aos 18 anos, o intérprete também acaba sendo o responsável por revelar um dos grandes nomes da música brasileira. Foi ele quem apresentou Elizeth Cardoso ao universo do rádio após presenciá-la cantando um samba numa festa privada. Apesar de incentivar a filha, o pai de Elizeth chegou a mostrar duas armas que carregava na cintura quando Jacob sugeriu levar a moça para o rádio. Por fim, a permissão foi concedida.

“(...) só tive um ensaio com ela em casa, pequenas correções de dicção. Geralmente, essas últimas sílabas, geralmente nenhum cantor diz, né? Fica por conta da imaginação de quem ouve. E levei Elizeth para a Rádio Guanabara e apresentei a Alberto (sobrenome inaudível). Ela estreou em... aqui Orlando Silva, que já é outra coisa (diz Jacob enquanto folheia as anotações). Dezoito de agosto de 1936, Programa Suburbano. Ela não ganhou um tostão e eu ganhei 30 mil réis. Lembro-me que ela cantou um samba de Luiz Bittencourt, que era mais ou menos assim...” e cantarola, fazendo questão de ressaltar que não é cantor.

Em outra parte da entrevista, ele rememora um episódio vivido com o amigo e ídolo Pixinguinha.

“(...) Pixinguinha, em casa, tocava choro em órgão. Tocou comigo, choro em órgão. E ninguém disse nada. Inclusive, fizemos uma sexta-feira santa tocando choro. Dona Betty (esposa de Pixinguinha) deu pulos de raiva, né? Mas isso é outro detalhe, é outro problema. Não é comigo. Fizemos grandes choros de bandolim e órgão”, destacou o músico, que estava presente na ocasião em que Pixinguinha prestou o seu testemunho oral na série Depoimentos para a Posteridade, em novembro de 1966. Além de Pixinguinha, Jacob também participou dos depoimentos de Cartola e Lupicínio Rodrigues.

Quando Jacob morreu, em 1969, dois anos depois de deixar seu testemunho registrado no MIS, cerca de 10 mil itens que pertenciam ao músico foram entregues para a salvaguarda do museu. Atualmente, a Coleção Jacob do Bandolim possui 11.032 itens catalogados e disponíveis no banco de dados para consulta. Um deles é o álbum de choros de Jacob com uma dedicatória especial para o Almirante (Henrique Foréis Domingues, cantor, compositor e radialista), em 1953. O disco tem 10 faixas: Dôce de côco, Vale tudo, Eu e você, Migalhas de Amôr, Gostosinho, Nostalgia, Forró de gala, Bole bole, Vascaíno e Biruta.

O setor tridimensional também preserva relíquias, como a roupa usada por Jacob em seu casamento, além de dois bandolins, um cavaquinho e outros objetos pessoais que reforçam características de sua personalidade. Uma delas era a "mania" de organização. Jacob tinha uma série de carimbos usados para identificar os itens que colecionava (partituras e documentos textuais). Os símbolos disponíveis para as marcações incluíam os algarismos de 0 a 9, vírgula, estrela de cinco pontas, braço de violão com cifra musical e seu nome em duas versões.

O setor iconográfico do museu, que é responsável pela preservação e tratamento técnico de fotografias, negativos, cartazes, pinturas e álbuns impressos, reúne 512 imagens relacionadas ao compositor e intérprete. Jacob também tinha o hábito de fazer registros, atuando como fotógrafo. Nas fotos de família aparecem os pais, o padrasto, os tios, a irmã, a madrinha e os primos de Jacob. O filho Sérgio Bittencourt fez um samba póstumo para homenagear o pai. A canção "Naquela mesa" se tornou um grande sucesso na voz de Elizeth Cardoso.

Todo o acervo do MIS, equipamento vinculado à Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro (Secec-RJ), está à disposição do público e dos pesquisadores. Para acessar o material basta enviar e-mail para saladepesquisa@mis.rj.gov.br e agendar uma visita ao Centro de Pesquisa e Documentação Ricardo Cravo Albin.

Confira a autobiografia de Jacob do Bandolim escrita em 1953

Jacob Bittencourt, nascido em 14-2-1918, com 35 anos, casado, dois filhos (Sérgio e Elena, 12 e 11 anos) natural do bairro de Laranjeiras (D. Federal). Não tem ascendentes ou colaterais que, sequer, gostem de música. Observando um velho músico estrangeiro tocar violino, sentiu-se encorajado para fazer o mesmo (idade 15 anos), mas como o arco do violino fosse cansativo usava um grampo de cabelo para pinicar as cordas ignorante, no seu isolamento de aluno interno do British American School do Rio, que existia o bandolim, para uso de palheta. Principiou num velho bandolim napolitano e, de ouvido, nele repetia as músicas assobiadas na rua ou pelas domésticas vizinhas. Livre do Colégio Interno começou a procurar repertório e assim permaneceu sem o paladar apurado até que ouviu as melodias dos antigos compositores brasileiros, tais como Nazaré, Anacleto de Medeiros, João Pernambuco, Calado, e outros. Daí adquiriu uma mentalidade mais nítida e passou a lutar em prol do repertório nacional procurando manter suas características evitando, com todos os esforços, inflexões alienígenas que, à éроса, começavam a perturbar seus colegas. Formado perito-contador, não gostando da profissão, passou a gerir a farmácia de seu pai. Não se acomodando ao comércio, ainda assim tentou as profissões de vendedor pracista, agente de seguros, sem resultado. Nunca quis viver do bandolim como até hoje o faz pois, depois de remido concurso, foi nomeado escrevente Juramentado da Justiça do D. Federal cargo que ocupa até hoje, isto há nove anos. A música para Jacob é um ideal a ponto de afirmar que o único setor de sua vida capaz de fazê-lo brigar... Reside numa linda vivenda própria em Jacarepaguá, no Rio, distante 35 km. do centro pois prefere a zona rural, mais simples e sossegada para seus devaneios musicais. Tem um repertório de cerca de 2.400 músicas brasileiras das quais muitas catalogadas em microfilmes pois houve éроса em que, organizando seu repertório, não dava conta da grande quantidade de músicas a copiar e registrar, preferindo assim a microfilmagem. Em uma caixa do tamanho da de uma pasta de dentes, acomoda facilmente 700 músicas... Tem melodias de quase todos os compositores de choro antigos e modernos. Não tolera bepop. Toca também violão, banjo, guitarra portuguesa, cavaquinho, e dois instrumentos cuja apresentação idealizou: violinha (4 cordas) e violão barítono (10 cordas). Apesar de sua luta, prevê a morte de autêntico choro para dentro de, no máximo 5 anos, o qual ficara para curiosidade como a schottisch, a polka, a quadrilha, o lundu, a habanera, etc. Justifica alegando que a deturpação é de tal monta que apesar de repudiada pelo povo ainda encontra quem a divulguem com esse aspecto e, assim, água mole em pedra dura... Compõe mentalmente sem utilizar um instrumento e nos lugares mais variados: até no serviço forense... não gosta de estudar bandolim e sente-se melhor quando, como já sucedeu, o empunha decorridos dois anos de inatividade... Vez por outra abandona o rádio com essa finalidade limitando-se a ouvir os colegas. Fã doente de Pixinguinha e Radamés Gnattali. Gosta de doces, arroz solto e é louco por ferramentas, tendo um estoque de mais de cr$ 20.000,00 (serras elétricas, máquinas de furar, etc). Jacob parado numa vitrina de S. Paulo é loja de ferramentas na certa... Acha a mulher brasileira a mais bonita e humana de todas. Por temperamento, é sisudo, altura: 1m83. Peso: 82 kg. Não tolera gravata. (Estou cansado...). Prefere tocar num bom ambiente a troco de um café requentado do que para multidões indiferentes por rios de dinheiro. Tem automóvel e um bom cão de raça. Não bebe. Fuma 3 maços por dia. Não joga conhecendo só dominó. Tem medo de avião, pois tendo sofrido três desastres graves de automóvel nada sofreu e acha que os aviões só caem de mau jeito... É visitado diariamente por chorões que fazem ponto em sua casa. Quando tocam bem são obrigados a ali dormir e ficar alguns dias até que o dono da casa fique saciado. Dorme 4 horas diárias. Tem caixotes de discos velhos tipo Casa Edison-Rio de Janeiro e neles aprendeu o Flor do Abacate, Flamengo, Siri tá no pau, Flor amorosa, Sorrir dormindo; Glória que, a seu modo, foram gravados na Continental e RCA. Adora S. Paulo porque aqui encontrou mais receptividade musical e mais ambiente para a luta a que se entregou. Deve sua temporada a Almirante com quem aprende os elementos biográficos dos compositores de sua preferência, e acha que ele é o soldado nº. 1 dessa campanha pura e bem intencionada em favor da boa música brasileira. Nunca está satisfeito com o que toca pois quando termina sempre julga que poderia fazê-lo melhor. Três coisas deixaram-no pasmo em S. Paulo:

1) a vida noturna
2) fila para pesar em balança de farmácia
3) a tolerância do S. Arnaldo Câmara Leitão para com o velho

Publicado em 14/2/2024 por Fernanda Soares

Link da autobiografia de Jacob do Bandolim escrita em 1953 - https://www.youtube.com/watch?v=vR9utLSbE7Y


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