HEITOR DOS PRAZERES: UM NOME QUE VOLTOU À AVENIDA
- 18/02/2026
* Texto de Ricardo Cravo Albin, primeiro diretor executivo do MIS.
O acúmulo de memórias em vida já tão espichada quase sempre me enternece. Ao menos quando podem evocar eventos agradáveis. Que felizmente são inúmeros. O que não quer dizer que os eventos amargos nunca sejam lembrados. É claro que existiram. Mas, como já disse o poeta, “as amargas não”. Melhor, e muito mais sábio, confiná-las dentro de uma cumbuca de fel. E esquecer.
Acode-me agora, ao ver Heitor dos Prazeres ser novamente celebrado na avenida, a certeza de que certos nomes não pertencem apenas ao passado — pertencem ao destino do Brasil. Heitor foi um pioneiro relevante. E não só como pintor primitivo de fina estirpe. Foi testemunha ocular do nascimento do samba na casa de Tia Ciata, onde viu nascer “Pelo Telefone” (1917, Donga – Mauro de Almeida). Foi também autor de sambas que se seguiram aos de Donga, João da Baiana, Sinhô e Pixinguinha, seus parceiros de folguedos musicais e do candomblé nos casarões da antiga Praça XI. Pioneiro, ainda, como fundador da Portela, onde era conhecido como Mano Lino.
Querem mais de Heitor? Foi admirado por presidentes da República como Juscelino Kubitschek e por intelectuais do porte de Carlos Drummond de Andrade, seu amigo e confidente.
Conheci Heitor na antiga Galeria Goeldi, fundada pelo crítico Clarival do Prado Valladares, que a ele me apresentou com frase definitiva:
— Este é o melhor pintor do Brasil, porque nunca estudou nada e sabe tudo. Eu já colecionava seus discos — não os quadros, que já valiam fortunas —, sambas gravados pelo conjunto “Heitor e sua gente”, indicados com fervor por Lúcio Rangel e Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, que costumava chamá-lo de “Prazeres Duplos”: os da pintura e os do samba. Quando criei no MIS, em 1966, os depoimentos para a posteridade, um dos primeiros a gravar seria ele. Durante três horas, contou-me sua vida. Falou de sucessos como “Pierrô Apaixonado” (com Noel Rosa), “Lá em Mangueira” (com Herivelto Martins) e “Mulher de Malandro”, este último sem parceiro, imortalizado por Chico Alves. Ao despedir-se na porta do Museu, impecável de terno escuro e óculos redondos, inclinou-se para mim e disse:
— Vou te contar um segredinho que não pude dizer lá dentro. O malandro da mulher do samba era este seu criado. E piscou o olho estrábico, moldura perfeita para aquele rosto marcado pela vida e iluminado pela malícia do samba. Foi a última vez que o vi.
Hoje, ao vê-lo renascer na avenida, compreendo que certos artistas não morrem. Transformam-se em enredo, em bateria, em canto coletivo. Heitor não pertence apenas à história — pertence ao Carnaval. E enquanto houver tamborim, haverá Heitor dos Prazeres.
Ricardo Cravo Albin



