A arte de fazer Cultura por trás dos palcos

  • 09/10/2026

A arte de fazer Cultura por trás dos palcos

A Fundação Museu da Imagem e do Som reproduz, com autorização do autor, Eric Herrero, tenor e gestor cultural, o texto a seguir.

A arte de fazer Cultura por trás dos palcos

Reflexões sobre planejamento, gestão, investimento e o trabalho invisível que torna a arte possível

Por Eric Herrero

Quando apagam-se as luzes da plateia e o palco ilumina-se, inicia-se para o público aquilo que chamamos de espetáculo. A orquestra toca o prelúdio ou abertura, vai-se a cortina, os artistas entram em cena e, durante algumas horas, somos convidados a experimentar um universo que parece existir apenas naquele instante.
Mas, para quem faz Cultura, o espetáculo começou muito antes.

Antes da primeira nota, do primeiro movimento, da primeira palavra ou do primeiro aplauso, houve uma ideia. E entre a ideia e sua realização existe um caminho longo, complexo e quase sempre invisível, feito de planejamento, escolhas, contas, contatos, contratos, infraestrutura, equipes, prazos e uma sucessão de decisões que precisam convergir para um único momento: aquele em que a arte finalmente encontra o público.

Talvez seja essa uma das dimensões menos conhecidas do fazer cultural. Estamos acostumados a associar a cultura àquilo que vemos. O cantor, o ator, o bailarino, o músico, o maestro, o cenário, o figurino. Mas há uma verdadeira engenharia por trás de cada espetáculo. E ela começa por uma pergunta aparentemente simples: o que queremos realizar?

A partir dela, surgem muitas outras:

Quais os artistas para aquele projeto? Quanto custa? Temos os recursos necessários? Qual é o tempo de preparação? Quem são os profissionais adequados? O espaço comporta aquilo que imaginamos? Quantos ensaios serão necessários? Quais contratos precisam ser celebrados? Existem direitos autorais envolvidos? Será preciso transportar cenários, figurinos ou instrumentos? Há artistas de outras cidades ou países? Como serão organizadas viagens e hospedagens? De quais fornecedores precisaremos? Como será feita a comunicação? Como chegaremos ao público?

Fazer cultura exige sonhar, mas exige também colocar o sonho diante de uma planilha, e não vejo qualquer contradição nisso.
Ao contrário: planejar não diminui a criação. Planejar cria as condições para que ela aconteça.

Uma ideia artística pode ser extraordinária e, ainda assim, não encontrar as condições necessárias para chegar ao palco. Por isso, uma parte fundamental do trabalho de gestão está em construir pontes entre aquilo que desejamos realizar e aquilo que efetivamente podemos realizar. Às vezes ampliamos uma ideia. Em outras, precisamos redimensioná-la. Em determinados momentos, adiamos. Em outros, encontramos parceiros que tornam possível aquilo que parecia inviável.

É nesse ponto que fazer Cultura também significa fazer escolhas.
Nenhuma instituição possui orçamento infinito. Nenhuma temporada comporta todos os projetos. Nenhum palco consegue receber todas as obras, todos os artistas ou todas as propostas que gostaríamos de apresentar.
Escolher, portanto, faz parte do ofício, e essas escolhas estão longe de ser apenas administrativas.

Quando decidimos recuperar uma obra que há décadas não é apresentada, estamos fazendo uma escolha cultural. Quando abrimos espaço para um jovem artista, também. Quando investimos em formação, preservação de acervo, novas produções, circulação, acessibilidade ou ampliação de público, estamos dizendo, de alguma maneira, qual cultura queremos ajudar a construir.
Administrar recursos é também estabelecer prioridades estabelecer prioridades é assumir responsabilidade.

Existe ainda outro elemento fundamental nesse processo: as relações.
Cultura se faz, fundamentalmente, com pessoas.
Um telefonema pode iniciar uma parceria. Uma conversa pode aproximar instituições. Um encontro pode resultar em um projeto que só será realizado anos depois. Um patrocinador pode acreditar em uma proposta. Um artista pode aceitar um desafio. Uma equipe pode encontrar uma solução quando parecia não haver saída.
Ao longo do tempo, compreendemos que uma instituição cultural não existe isoladamente. Ela faz parte de uma rede. Artistas, técnicos, produtores, gestores, patrocinadores, governos, empresas, universidades, escolas, organizações culturais e público formam um ecossistema que precisa conversar.
Por isso, contatos não são apenas uma agenda de nomes, mas relações de confiança construídas ao longo dos anos.

Depois vêm os contratos.
A arte também precisa de documentos, responsabilidades, prazos e garantias. É preciso contratar artistas, fornecedores e serviços; organizar pagamentos; estabelecer cronogramas; observar legislações; cuidar de direitos; prestar contas dos recursos utilizados.
Há algo importante nessa dimensão que muitas vezes passa despercebido: profissionalizar a Cultura não significa burocratizá-la. Significa protegê-la.

Um contrato bem construído protege o artista, a instituição e o recurso empregado. Um orçamento responsável permite continuidade. Uma prestação de contas correta preserva a possibilidade de novos investimentos. Uma gestão eficiente cria confiança.
E confiança também produz Cultura.

Há ainda a infraestrutura. Palcos não funcionam sozinhos.
Existem máquinas, equipamentos, varas de cenário, iluminação, som, instrumentos, camarins, oficinas, depósitos, salas de ensaio, sistemas elétricos, segurança, limpeza e manutenção. Há profissionais que chegam muito antes do público e permanecem depois que ele vai embora.
Há quem monte e desmonte, quem transporte, costure, illumine, afine, produza e organize partituras. Além disso, há quem cuide dos instrumentos, prepare o camarim, opere equipamentos, receba o público, cuide da segurança e quem resolva, muitas vezes em poucos minutos, um problema que ninguém na plateia jamais saberá que existiu.
Essa talvez seja uma das imagens mais bonitas do fazer cultural: centenas de trabalhos diferentes convergindo para o mesmo instante. Quando tudo funciona, parece simples, não é mesmo?
Talvez esse seja justamente um dos maiores paradoxos dos bastidores: quanto melhor é o trabalho realizado antes da abertura da cortina, menos ele aparece!
O público não precisa pensar no contrato que foi assinado, na passagem aérea que precisou ser alterada, no orçamento que foi revisto, na peça de um equipamento que precisou ser substituída, na negociação que atravessou semanas ou no ensaio que precisou mudar de horário.
O público precisa encontrar a arte! E é para isso que todo o restante existe.

Mas existe uma dimensão que não pode ser esquecida: o dinheiro investido em Cultura não fica restrito ao palco. Uma produção cultural movimenta uma cadeia muito maior. O recurso destinado a um projeto pode chegar ao artista, mas também ao técnico, ao fornecedor, ao hotel, ao restaurante, ao transporte, à empresa de comunicação, ao profissional administrativo, ao aluguel de equipamentos e a tantos outros serviços que participam da realização de uma obra.
A Fundação Getulio Vargas ajuda a dimensionar esse efeito:

No Estado do Rio de Janeiro, estudo da FGV sobre a execução da Lei Paulo Gustavo mostrou que os R$ 139 milhões executados em 2023 geraram impacto de R$ 852,2 milhões na economia fluminense. Segundo o estudo, para cada R$ 1,00 investido em Cultura, R$ 6,51 retornaram à sociedade e aos cofres públicos. A aplicação dos recursos em 1.190 projetos, distribuídos por 19 editais, esteve associada à criação de 11.526 postos de trabalho, entre diretos e indiretos.

No panorama nacional, a pesquisa mais recente da FGV sobre a Lei Rouanet, referente aos projetos executados em 2024, aponta um impacto ainda mais expressivo: para cada R$ 1,00 investido por meio da renúncia fiscal, R$ 7,59 retornaram à economia e à sociedade. No mesmo ano, a Lei Rouanet movimentou R$ 25,7 bilhões na economia brasileira e gerou ou sustentou 228 mil postos de trabalho. O estudo também identificou R$ 1,39 em arrecadação tributária para cada R$ 1,00 investido via renúncia fiscal.

Esses números ajudam a desmontar uma ideia simplista de que Cultura é despesa.
Talvez a pergunta não devesse ser quanto custa fazer Cultura, mas quanto deixamos de movimentar quando deixamos de fazê-la.

O dinheiro que chega ao palco não permanece no palco! Ele se transforma em trabalho, renda, impostos, serviços, circulação econômica, formação profissional, turismo, ocupação de espaços, encontros e oportunidades.
Mas é importante não cair em outra armadilha: a de justificar a Cultura apenas porque ela gera dinheiro.
O retorno econômico é uma parte da história. Não é a história inteira.
Cultura também gera identidade, pertencimento, formação, memória, conhecimento, autoestima e perspectiva de futuro. Esses valores são muito mais difíceis de colocar em uma planilha — e nem por isso são menos reais.

Há investimentos cujo retorno podemos calcular. E há investimentos cujo valor só conseguimos compreender quando olhamos para uma sociedade transformada por eles.
É por isso que a Cultura precisa ser compreendida simultaneamente como direito, como patrimônio, como força econômica e como instrumento de desenvolvimento humano.

Talvez seja também por isso que trabalhar com Cultura seja aprender a conviver permanentemente com o futuro.
Enquanto o público assiste ao espetáculo de hoje, alguém nos bastidores já está pensando no espetáculo de amanhã.
O trabalho também não termina com os aplausos. Depois que a cortina se fecha, há desmontagens, limpeza, organização, pagamentos, relatórios, avaliações, prestações de contas, registros, arquivos e, claro, aprendizados. É preciso entender aquilo que funcionou e aquilo que pode funcionar melhor. É preciso preservar a memória do que aconteceu e, quase imediatamente, começar a preparar aquilo que acontecerá depois.

Ao longo dos anos, aprendi a olhar para o palco de duas maneiras. Continuo enxergando a emoção, a beleza e a capacidade extraordinária que a arte possui de transformar um instante. Mas passei também a enxergar tudo aquilo que sustenta esse instante.

As contas, as escolhas, as reuniões, os telefonemas os contratos, os cronogramas os ensaios, as dificuldades, as pessoas e as soluções encontradas quando alguma coisa parecia impossível.
Isso também é fazer Cultura.

Talvez, a verdadeira arte por trás dos palcos esteja justamente aí: transformar recursos, pessoas, ideias e possibilidades em algo que, durante algumas horas, faça o público esquecer toda a complexidade necessária para que aquele encontro pudesse existir.
No palco, um espetáculo pode durar duas ou três horas… por trás dele, porém, existem meses de trabalho, milhares de decisões e muitas mãos.
Quando as luzes se apagam e chegam os aplausos, vemos o resultado.
Mas fazer Cultura é também tudo aquilo que foi necessário para chegarmos até ali.

Fontes e referências

Fundação Getulio Vargas — Estudo sobre o impacto da Lei Paulo Gustavo no Estado do Rio de Janeiro (2024). https://portal.fgv.br/noticias/estudo-analisa-impacto-lei-paulo-gustavo-estado-rio-janeiro

Fundação Getulio Vargas — Pesquisa de Impacto Econômico da Lei Rouanet (2026), com dados referentes a 2024. https://portal.fgv.br/noticias/lei-rouanet-movimenta-r-257-bilhoes-e-sustenta-228-mil-empregos-aponta-estudo-da-fgv

FGV — Relatório completo da Pesquisa de Impacto Econômico da Lei Rouanet. https://portal.fgv.br/sites/default/files/uploads/relatorio-diagramado-19h.pdf

UNESCO — Culture and Arts. https://www.unesco.org/en/culture


#Compartilhe

Aplicativos


No Ar

Top 5

top1
1. Primavera no Rio

Braguinha

top2
2. Xote de Copacabana

Jackson do Pandeiro

top3
3. Copacabana

Dick Farney

top4
4. Retrato em Branco e Preto

Tom Jobim

top5
5. O Barquinho

Wanda Sá e Roberto Menescal

Oferecimento