O MIS completa 61 anos como guardião da memória e da cultura brasileira

  • 09/10/2026

O MIS completa 61 anos como guardião da memória e da cultura brasileira

No dia 3 de setembro de 2026, a Fundação Museu da Imagem e do Som completa 61 anos de história. Criada em 1965, durante as comemorações do IV Centenário da cidade, a instituição nasceu com a missão de preservar a memória cultural do Rio de Janeiro e, ao longo de mais de seis décadas, transformou essa missão em uma das mais importantes experiências de salvaguarda da memória audiovisual brasileira. Hoje, a F.MIS é um museu vivo, que preserva documentos, imagens, sons e histórias, mas que também cria novas maneiras de fazer com que esse patrimônio continue dialogando com o presente e com as futuras gerações.

“Completar 61 anos é celebrar uma história construída por muitas mãos, por muitas vozes e, principalmente, por uma equipe que acredita diariamente na importância da memória. A F.MIS chega a este aniversário mais forte, mais conectada e cada vez mais preparada para os desafios do futuro. Temos um acervo extraordinário, mas sabemos que preservar não significa apenas guardar, significa pesquisar, compartilhar, criar novas possibilidades de acesso e fazer com que a cultura permaneça viva. É isso que buscamos todos os dias na Fundação”, destaca o presidente da F.MIS, Cesar Miranda Ribeiro.

Ao longo de sua trajetória, a F.MIS se consolidou como uma instituição pioneira na preservação da cultura audiovisual no Brasil. Seu acervo, que se aproxima de 1 milhão de itens, reúne fotografias, negativos, filmes, fitas de áudio e vídeo, discos, documentos textuais, partituras, livros, cartazes e objetos tridimensionais, organizados em diferentes setores técnicos. São registros que atravessam gerações e ajudam a contar a história do Rio de Janeiro e do Brasil por meio de suas imagens, seus sons, seus personagens e suas manifestações culturais.

Entre os grandes símbolos dessa missão está o projeto Depoimentos para a Posteridade, criado em 1966, e que completou 60 anos no dia 24 de agosto deste ano. Ao longo dessas seis décadas, a iniciativa registrou as vozes de artistas, escritores, músicos, pesquisadores, intelectuais e personalidades fundamentais da cultura brasileira. O projeto já ultrapassa a marca de 1.100 depoimentos e continua em plena atividade, com novas gravações que ampliam permanentemente esse patrimônio de memória oral. Em 2026, a Fundação registrou, entre outros, os depoimentos de Paulo Cesar de Araújo, Pedro Vasquez, e o primeiro Depoimento para a Posteridade gravado no MIS Copacabana, com Danielle Barros, mantendo viva uma das mais importantes iniciativas de história oral do país.

Este ano também marcou um novo capítulo nessa trajetória com a estreia do projeto Memórias Afetivas, criado para registrar, preservar e disponibilizar relatos de vida de pessoas com 80 anos ou mais. A iniciativa amplia o olhar da Fundação para além das personalidades já reconhecidas publicamente, valorizando histórias de vida, experiências e lembranças que também fazem parte da construção da memória social brasileira. É a F.MIS mostrando que toda vida guarda uma história que merece ser escutada e preservada.

Em 2026, a Fundação também deu um passo decisivo em direção ao futuro com o lançamento do MIA – Memória e Inteligência Artificial. Desenvolvida pelo setor de Banco de Dados da instituição, a plataforma utiliza inteligência artificial para ampliar as possibilidades de pesquisa e acesso ao acervo, inicialmente a partir dos conteúdos textuais dos Depoimentos para a Posteridade. O sistema permite gerar resumos, identificar termos relacionados, organizar resultados, realizar transcrições e produzir sínteses estruturadas, aproximando tecnologia e preservação cultural.

Um dos projetos mais ambiciosos associados ao MIA é a transcrição integral dos mais de 1.100 Depoimentos para a Posteridade. A iniciativa permitirá conectar informações presentes nas falas dos depoentes e transformar esse conjunto monumental de entrevistas em uma base de conhecimento cada vez mais acessível e integrada. Assim, a tecnologia passa a atuar não como substituta da memória, mas como uma ferramenta para ampliar suas possibilidades de pesquisa, interpretação e difusão.

A relação entre cultura e inteligência artificial também esteve presente em exposições, debates e encontros realizados pela Fundação. A F.MIS promoveu uma discussão sobre inteligência artificial e línguas indígenas, reunindo cultura, tecnologia, memória e responsabilidade institucional em uma reflexão sobre a presença das línguas originárias nos sistemas de IA. A instituição também segue aprofundando o debate sobre os impactos da tecnologia na produção cultural e sobre os desafios éticos, sociais e criativos trazidos pela inteligência artificial.

A inovação encontrou também espaço na exposição “Carnaval: Uma Paixão Carioca”, inaugurada em março na sede da Lapa. Partindo do vasto acervo da Fundação, a mostra apresentou o carnaval como elemento essencial da identidade cultural do Rio de Janeiro, valorizando foliões, trabalhadores, músicos, blocos e todos aqueles que fazem a festa acontecer. Entre as experiências da exposição está a participação da inteligência artificial Orion Nova, caracterizada como Rei Momo, aproximando o público de informações e histórias sobre o carnaval fluminense por meio de uma experiência interativa.

A preservação, porém, continua caminhando lado a lado com a valorização dos acervos físicos e audiovisuais. Em 2026, a F.MIS efetivou sua 47ª coleção, a Coleção Hermogêneo Rangel, reunindo mais de 30 itens relacionados ao cineasta e produtor brasileiro, incluindo fotografias, livros, documentos, fragmentos de filmes e um projetor. Em uma ação conjunta com o Centro Técnico Audiovisual (CTAv), a Fundação também trabalhou durante quase um ano na recuperação dos fragmentos cinematográficos da coleção, com a digitalização realizada na própria F.MIS.

A atuação da Fundação ultrapassou novamente os limites de suas sedes. Ao longo do ano, a F.MIS esteve presente em diferentes municípios do estado do Rio de Janeiro, levando conhecimento, memória e cultura para outras regiões e fortalecendo vínculos com instituições e comunidades locais. A presença em festivais, encontros, seminários e atividades culturais também ampliou a circulação da instituição e mantendo a sua vocação de construir pontes entre diferentes territórios.

Um desses momentos aconteceu na 9ª edição do Festival Santa Cruz de Cinema, no Rio Grande do Sul, onde a participação da F.MIS contribuiu para o fortalecimento do intercâmbio com instituições e agentes do audiovisual de outras regiões do país. Foi também durante esse processo de aproximação que nasceu o diálogo que levou à parceria com o Instituto Estadual do Cinema do Rio Grande do Sul (Iecine) para a salvaguarda do acervo audiovisual do Observatório Iecine, composto por mais de 50 episódios exibidos pela TVE/RS e aproximadamente 200 horas de material bruto.

A vocação para o intercâmbio cultural também ganhou dimensão internacional. Em 2026, a F.MIS recebeu um coral argentino no MIS Copacabana, fortalecendo as relações culturais entre Brasil e Argentina e dando continuidade a uma política de aproximação internacional que vem sendo construída pela Fundação. O encontro mostrou que preservar a memória também significa estabelecer diálogos entre diferentes culturas e compartilhar experiências que ultrapassam fronteiras.

Nas sedes da Fundação, a programação cultural permaneceu intensa. A Sala Glauber Rocha, na Praça XV, voltou a receber o CineMIS, criando novamente um espaço de encontro entre o público, o cinema brasileiro e profissionais do audiovisual. Sessões seguidas de debates aproximaram espectadores de obras importantes da cinematografia nacional e transformaram a experiência de assistir a um filme em uma oportunidade de reflexão, formação e troca.

A Praça XV também recebeu diferentes iniciativas ao longo do ano, como o debate “Cafona é quem? O brega como patrimônio emocional brasileiro”, que dialogou diretamente com a valorização da música popular brasileira e com a trajetória de pesquisa registrada no acervo da instituição. O projeto Bandas Inesquecíveis homenageou a Banda Grafite, enquanto o Sarau dos Saraus transformou a Sala Glauber Rocha em espaço de encontro poético. A Fundação também celebrou o centenário de Jorge Goulart, preservando e celebrando trajetórias que fazem parte da história cultural brasileira.

Cada uma dessas ações integra uma mesma missão, fazer com que a memória não permaneça parada. Ao promover exposições, debates, sessões de cinema, saraus, homenagens, gravações, pesquisas e encontros, a F.MIS transforma seu acervo em ponto de partida para novas experiências. O passado deixa de ser apenas objeto de consulta e passa a ser matéria viva para a construção do presente.

A expansão das parcerias também demonstra essa vocação. A Fundação vem fortalecendo relações com museus, centros culturais, órgãos públicos, universidades, instituições de pesquisa, produtores, artistas e diferentes agentes da cultura. A cooperação com o CTAv, o diálogo com o Iecine, a participação em festivais nacionais e o intercâmbio com a Argentina são exemplos de uma atuação que entende a preservação como uma tarefa coletiva.

A história da F.MIS é, portanto, feita de acervos, mas também de pessoas. São os profissionais que catalogam, pesquisam, restauram, digitalizam, conservam, entrevistam, produzem, comunicam e criam novas formas de aproximar o público da memória. São também os doadores, pesquisadores, artistas, parceiros e visitantes que ajudam a dar sentido a tudo aquilo que a instituição preserva.

Aos 61 anos, a Fundação Museu da Imagem e do Som segue olhando para o futuro sem perder de vista aquilo que a trouxe até aqui. Preserva fotografias que atravessaram décadas, vozes que poderiam se perder no tempo, filmes que resistiram à deterioração, documentos que ajudam a reconstruir histórias e objetos que carregam consigo marcas de outras épocas. Ao mesmo tempo, experimenta novas tecnologias, cria novas plataformas, amplia suas fronteiras e encontra novas maneiras de escutar e compartilhar.

Mais do que guardar o passado, a F.MIS trabalha para que ele continue produzindo sentidos. Porque memória só permanece verdadeiramente viva quando pode ser acessada, questionada, compartilhada e reinventada por cada nova geração.

A F.MIS celebra não apenas o tempo que passou, mas todas as histórias que ainda estão por ser contadas. E segue, como guardiã da memória audiovisual brasileira, construindo pontes entre aquilo que fomos, aquilo que somos e aquilo que ainda podemos ser.

Publicado em 09/10/2026 por Marcelo Egypto


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